20 de jan. de 2008

O Parangolivro de Aroldo Pereira

O poeta Aroldo Pereira acaba de lançar numa turnê por várias cidades brasileiras seu novo livro, publicado pela Editora 7 Letras. Trata-se do Parangolivro, uma coletânea de inspirados poemas com grande teor imagético, através dos quais ele trava um diálogo com três ícones do vanguardismo brasileiro do século XX: o poeta Torquato Neto e os artistas plásticos Hélio Oiticica e Raimundo Colares. Além de poeta, Aroldo Pereira é um agitador cultural, assim como o foram os três artistas que ele homenageia postumamente em seu Parangolivro (o nome é uma alusão aos famosos parangolés, capotes utilizados por Oiticica em suas performances). Ele também é idealizador e coordenador do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético, que acontece há 22 anos em Montes Claros (MG). A seguir, o poema-tema do livro, uma mostra da irriquieta poesia aroldiana:
Parangolivro
negro pobre poeta
sem noção de seqüência
multiplicidade de olhares
ler e descobrir
escrever bater com a cabeça
uma arma em nossa mira
não caber
dentro da armadura
debater até sangrar
entrar e sair
como se não estivesse
viver longo
cada instante
olhar os filhos sem fim
caminhar sob o sol
fugir do inferno de si
uma rua de são Paulo
de coração de Jesus
cada vez + distante
a vida ressoa num acorde
filhos seguem sem rumo
ser pai ser filho
não ter respostas
a pedra bate
a pedra pousa
o barulho cresce a coisa
pênis em ereção
música no rádio
barulho vulgar
agüentar a vida
com o sol na cara
cada palavra
uma confusão
convulsão
no dicionário
raspar o rosto
não ter onde ir
grama crescendo
no jardim
a lua no esgoto
oiticica não amava ana
q. não amava torquato
q. amava cinema
a gente não cabe inteiro
luzes se sobrepondo
fraturas expostas
câmeras pinceladas velozes
instalação no porão
todo dia toda dor
24 horas de inquietação
azul é o metrô
a canção a puta a mãe
01 barulho ensurdecedor
ossos em febre
oco do fim do mundo
dente cárie caralho
uma palavra porrada
parangolivro parangolé
morro raimundo de montes
claros colares
hélio morro da mangueira
parangolé oiticica
ninhos gibis
incertezas
instantes de interdelírio
garotos hospícios
parangolivres
se arrastar
até a montanha
voltar
01 rock é uma pedra
é um toque
uma bananeira no hospício
mondrian atrás das grades
depois bem depois
arthur bispo do rosário
a palavra dependurada
febre imagens
parangodelírio
trocar o sto. de parede
descendo a av. do brasil
chico science bate pino
ossos em febre
viver o inferno
debandar morro acima
05 favelas e + promete
demônio se debatendo
possuído pela palavra
parangolé qual é
a vida se abre
em dobras
qual é o parangolé
se segura por 01 fio
por 01 filho
por uma dúvida
tudo é dúvida
01 barulho quer dizer coisas
quantos séculos saeculorum
repetiremos
o azul não suporta o cavalo
mentir é arma de domínio
negro
pobre
poeta
uma chuva rala
uma procissão
de indiferentes
o corpo permanece
no asfalto
parangolivre

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